7# ESPECIAL TERRA 19.11.14

     7#1 UM GRANDE PASSO PARA A HUMANIDADE
     7#2 IDIAS  UMA ODISSEIA SEM FIM PELA VIDA
     7#3 RECURSOS HDRICOS  SE EST EM FALTA,...
     7#4 AQUECIMENTO GLOBAL  UM GESTO DE LIMPEZA
     7#5 AMAZNIA  UM PASSO PARA TRS
     7#6 COMPORTAMENTO  O IMPACTO DE CADA UM

7#1 UM GRANDE PASSO PARA A HUMANIDADE
O extraordinrio pouso de uma sonda da misso Rosetta em um cometa pode ajudar a explicar o mistrio da existncia de gua na Terra  privilgio do nico ponto do universo sabidamente capaz de abrigar vida humana e inteligncia.
FILIPE VILICIC E RAQUEL BEER

Quem somos ns? Descobrimos que vivemos em um planeta insignificante de uma estrela banal perdida em uma galxia aninhada em algum canto esquecido do universo onde existem muito mais galxias do que pessoas."
CARL SAGAN, astrofsico americano, escritor e um dos maiores propagandistas da cincia (1934-1996).

     O macaco sem pelo aprendeu a andar ereto, desenvolveu um crebro que consome 20% da energia corporal e, impulsionado por ele, evoluiu a ponto de, na semana passada, instalar um rob espacial na superfcie de um cometa do tamanho de um tero da Ponte Rio-Niteri, viajando no espao 100 vezes mais rpido do que uma bala de fuzil.  um feito extraordinrio para uma espcie que, se a idade da Terra fosse de 24 horas, estaria perambulando pelo planeta h apenas 1 segundo. Nada nos fascina mais do que a gua, a base da vida. Estamos sempre em busca dela. Nunca foi encontrada em forma lquida (e estvel) fora do nosso osis azulado que orbita o Sol. Nosso corpo  60% gua. Nosso crebro, 75%. Sem ela, morremos em trs dias. Sem ela no seramos. Por isso, olhamos para o cu noturno e enxergamos estrelas, mas buscamos gua. 
     "Foi um grande passo para a civilizao", celebrou Jean-Jacques Dordain, diretor-geral da ESA, a agncia espacial europeia, depois de o primeiro sinal emitido pelo Philae chegar ao controle da misso na cidade alem de Darmstadt, s 17h01 de quarta-feira passada (14h01 no horrio de Braslia). Viajando  velocidade da luz, a mensagem levou 28 minutos para alcanar a Terra  28 minutos de tenso at terem certeza do sucesso da aterrissagem no 67P Churyumov-Gerasimenko, o Chury, chamado assim em homenagem aos astrnomos ucranianos que o identificaram pela primeira vez como um cometa, em 1969. A identificao alfanumrica 67P  anterior a 1969, quando o agora cometa aparecia nos documentos da Unio Astronmica Internacional (IAU) apenas como mais um dos centenas de milhares de pequenos corpos celestes genricos que orbitam o Sol  que podem ser planetas-anes ou asteroides. Quando era apenas o 67P, o hoje Chury despertava pouco ou nenhum interesse na comunidade cientfica. Asteroides e planetas-anes so corpos estreis, compostos apenas de rochas e poeira csmica. J os cometas so misteriosas formaes de gelo sobre rochas que irradiam luz quando sua rbita os leva muito perto do Sol. Cometas contm gua e, quem sabe, formas microscpicas de vida. 
     A Rosetta, que carregou o mdulo de pouso Philae, foi lanada h dez anos pela ESA.  magnfico pensar que uma tecnologia de uma dcada atrs  espao de tempo considervel se se levar em conta a toada cada vez mais rpida dos avanos cientficos  concretizou um dos maiores marcos da histria da explorao espacial. Foi necessrio recorrer a quatro sculos de estudo da mecnica celeste descrita com preciso pelo alemo Johannes Kepler para calibrar a trajetria da misso ao encontro do cometa, com o uso da fora gravitacional de Marte e da Terra. 
     A aproximao final da Rosetta foi como uma apresentao de bal que misturasse os movimentos clssicos de um Nijinski com a coreografia inovadora de Pina Bausch. A sonda fez manobras em formato triangular para evitar a face escura de Chury e desse modo garantir energia solar para operar. "Tudo em ordem, vou me separar da Rosetta", anunciou a ESA na manh de quarta-feira na pgina do Twitter criada para repassar avisos que o Philae envia. 
     As mensagens seguintes foram preocupantes. Nem tudo corria bem a 510 milhes de quilmetros da Terra. Os jatos de hidrognio lquido que deveriam guiar o pouso no funcionaram, e o Philae contou apenas com o impulso gerado ao se desprender da sonda-me e com a dbil fora de atrao exercida pelo cometa. Na Terra, o Philae tem o peso de uma geladeira. No cometa, cuja massa  600 trilhes de vezes menor que a da Terra,  leve como uma pena. Ao tocar o solo, o impacto fez com que quicasse como uma bola de basquete, afastando-se 1 quilmetro. Mais uma vez atuou a fora gravitacional do cometa, que trouxe de volta o Philae ao cho em uma agoniante queda em cmera lenta que durou duas horas. Mais um quique e mais alguns minutos de indefinio at pousar em definitivo. Os arpes que deveriam fix-lo na superfcie do cometa falharam. S duas das trs pernas mecnicas tocaram o solo. A terceira paira sobre uma depresso do terreno. O pouso de emergncia deixou o Philae em uma regio menos exposta ao Sol do que o planejado. Suas baterias tinham 64 horas de carga e podiam acabar na ltima sexta-feira. Depois disso, sem luz suficiente sobre as clulas solares, o Philae morre. Os cientistas da ESA estudavam mais uma ousadia: fazer a sonda usar as brocas que tem na sola das patas para, a exemplo de um alpinista com seus ganchos, se arrastar centmetro por centmetro para uma rea mais ensolarada. Para quem j realizou uma faanha semelhante  de um atirador que, do Rio de Janeiro, acertasse a cabea de um alfinete em Moscou, no parece impossvel transformar remotamente uma sonda em um alpinista robtico. 
     Mesmo que d tudo errado, ainda assim so grandes, portanto, as chances de que a sonda leve a bom termo suas trs misses primordiais (veja o quadro). Primeira: descobrir se a gua do gelo do cometa  compatvel com a da Terra (com a mesma variao de istopos em sua composio), o que comprovaria teorias de que nosso planeta foi abastecido com H2O de origem extraterrestre. Segunda: buscar molculas orgnicas que podem indicar a possibilidade de esses corpos rochosos terem depositado na Terra elementos essenciais ao surgimento de seres vivos. Em resumo, podem elucidar a origem da vida. O terceiro objetivo, nas palavras do alemo Gerhard Schwehm, fsico da misso Rosetta, em entrevista a VEJA: "Os cometas, relquias do incio do sistema solar, verdadeiras cpsulas do tempo, servem de laboratrio para compreender como surgiram o Sol e a Terra". 
     Das trs questes, a primeira, a da semelhana da gua de l com a gua de c,  a que pode ser respondida com mais rapidez. Se comprovado o parentesco da gua do cometa Chury com a composio dos mananciais da Terra, concluiremos que os asteroides e os cometas, em coliso constante com a rocha seca que era nosso planeta bilhes de anos atrs, foram os responsveis por termos rios, lagos e oceanos. Apesar de haver indcios de que o mesmo ocorreu com Marte e com planetas universo afora, no se tem certeza se h no cosmo outro lugar como a Terra, que, alm de ter H2O em abundncia, possui caractersticas nicas (at onde se sabe) para abrigar vida, como uma atmosfera no ponto ideal para segurar a gua lquida na superfcie. gua que, como mostram as reportagens das pginas a seguir,  um recurso finito e sem o qual estaramos fadados  extino. Mas que tratamos com desdm: desperdiamos, polumos e devastamos ecossistemas que mantm reservas limpas. "A diversidade da natureza  to grande, e os tesouros que esconde to ricos, que jamais faltar combustvel para a mente humana", proclamou Kepler. Cada indagao respondida pela ousadia de cientistas como os europeus que guiaram a Rosetta por milhes de quilmetros no espao abre campo para investigaes ainda mais profundas sobre os mistrios do universo. A isso erguemos um brinde com um copo de gua pura e fresca.  

A PERSEGUIO DO COMETA
Depois de dez anos de viagem e 6,5 bilhes de quilmetros percorridos, a sonda Rosetta atingiu seu objetivo: aterrissar o mdulo de pouso Philae no cometa 67P. Nem tudo saiu como planejado, mas a misso foi cumprida, em um feito que envolve complexos clculos sobre a mecnica csmica que rege planetas, estrelas, cometas e sondas criadas pelo homem.
1- LANAMENTO - 2 de maro de 2004
Distncia do cometa: 583 milhes de quilmetros
 A Rosetta decotou da base na Guiana Francesa.
2- VOLTAS PELO SISTEMA SOLAR
Passagens pela Terra: maro de 2005, novembro de 2007 e novembro de 2009
Distncia do cometa na ltima aproximao da Terra: 537 milhes de quilmetros
Passagem por Marte: fevereiro de 2007
 Para pegar impulso e ganhar velocidade, a sonda aproximou-se e deu voltas na Terra e em Marte.
3- ECONOMIA DE ENERGIA
De junho de 2011 a janeiro de 2014
Distncia do cometa: 141 milhes a 9 milhes de quilmetros
 A Rosetta entrou em estado de hibernao at sua aproximao do cometa.
4- EM RBITA
6 de agosto
Distncia do cometa: 100 quilmetros
 Ingressou na rbita do cometa  e comeou a fazer manobras para aterrissar o mdulo de pouso Philae.

A APROXIMAO
As manobras foram divididas em quatro etapas, nas quais a sonda fez movimentos triangulares, a quase 60 quilmetros por hora, para sempre ficar exposta ao Sol, sua principal fonte de energia.
1 etapa 6 a 23 de agosto 
Distncia do cometa: 100 a 80 quilmetros 
Distncia da Terra: 415 milhes de quilmetros 
2 etapa 24 de agosto a 9 de setembro
Distncia do cometa: 60 a 30 quilmetros
Distncia da Terra: 433 milhes de quilmetros
3 etapa 10 de setembro a 11 de novembro
Distncia do cometa: 30 a 22,5 quilmetros
Distncia da Terra: 508 milhes de quilmetros
4 etapa 12 de novembro
 Incio do processo de aterrissagem do Philae
Velocidade da Rosetta: 55.000 quilmetros por hora
Velocidade do Philae em relao ao cometa: 4 quilmetros por hora
Distncia do cometa: 22,5 quilmetros
Distncia da Terra: 510 milhes de quilmetros

AS SETE HORAS DE ATERRISSAGEM
7H03: O Philae se separou da Rosetta, mas seus jatos de nitrognio frio, que deveriam impulsion-lo, falharam (teve de depender da acelerao consequente da separao da sonda)
7h43: A Rosetta se afastou do cometa e do Philae
8h: A primeira imagem enviada pelo Philae
11h33: A primeira tentativa de pouso falhou: o Philae quicou na superfcie rochosa do cometa, subiu 1 quilmetro e voltou a descer
13h26: Segunda tentativa, mas ele mais uma vez quicou, subindo alguns centmetros
13h33: O pouso foi um sucesso, mas os dois arpes que deveriam prender o mdulo nas rochas no funcionaram; o Philae agora conta somente com um sistema de parafusos para se fixar
14h01 Depois de 28 minutos e vinte segundos, os "minutos do terror" (tempo que leva para a primeira mensagem de rdio chegar  Terra), agncia espacial ESA confirmou o sucesso da operao

Philae
Comprimento: 1 metro
Largura: l1metro
Altura: 1 metro
Peso: 100 quilos. Tamanho de uma mquina
de lavar roupas

Cometa 67P
Comprimento: 4,1 quilmetros
Peso: 10.000.000.000 toneladas
Metade da altura do Monte Everest

Pousar o Philae no cometa seria o mesmo que lanar um dardo de 16 centmetros...
...a 275 quilmetros por hora...
...que desse 810 voltas na Terra...
...antes de acertar no meio de um alvo de 20 metros de dimetro, e que tambm se move a 675 quilmetros por hora.

MISTROS RIMORDIIS
O Philae analisar o 67P em busca de respostas a questes to essenciais quanto "qual  a origem da vida?" ou "de onde veio a gua da Terra?" 

O que o Philae usar...
COSAC e PTOLEMY: instrumentos de deteco de gases que examinaro a ralssima atmosfera em busca de molculas orgnicas e outros elementos
ROLIS: cmera fotogrfica de alta resoluo direcionada para baixo
SD2: haste destinada a perfurar a superfcie do cometa em at 23 centmetros para coletar amostras
IVA: seis microcmeras de fotos panormicas
APXS: espectrmetro com o qual o rob penetrar 4 centmetros na superfcie para analisar a composio qumica do solo
MUPUS: sensores para medir a densidade e a temperatura locais

...na busca por:
GUA - A composio qumica do gelo do cometa ser analisada, e as informaes, comparadas com a estrutura da gua na Terra 
Por que isso  relevante: pode certificar teorias segundo as quais mais da metade da gua dos oceanos terrestres foi depositada por cometas e asteroides h mais de 4 bilhes de anos. 
VIDA: Sero procuradas molculas orgnicas no solo e na atmosfera 
Por que isso  relevante: cometas teriam trazido para a Terra molculas ricas em carbono, hidrognio, oxignio e nitrognio - ingredientes de aminocidos, a base do DNA e da vida.
EXPLICAES PARA A ORIGEM DO SISTEMA SOLAR: Devem ser coletados dados da estrutura, da composio qumica, do campo magntico e da fina atmosfera do nosso universo 
Por que isso  relevante: cometas so feitos do mesmo material que deu origem aos planetas e ao Sol, mas em nada mudaram em 4,6 bilhes de anos. Entend-los  compreender melhor a nbula pr-solar, sopa de molculas que formou o sistema solar.


7#2 IDIAS  UMA ODISSEIA SEM FIM PELA VIDA
O anseio de viajar para fora da Terra e encontrar planetas habitveis e com habitantes  algo impossvel sem a presena de gua , tema recorrente na literatura e no cinema, diz muito respeito da prpria natureza humana.
RINALDO GAMA

Assim como no constitui nenhuma surpresa que entre todos os sapatos de uma sapataria exista pelo menos um par que lhe sirva, tampouco  uma surpresa que entre todos os planetas exista pelo menos um cuja rbita esteja a uma distncia de sua estrela que seja a correta para produzir um clima compatvel com nossa forma de vida." 
BRIAN GREENE, fsico americano 

     Em uma cena de Interestelar, o ambicioso filme de Christopher Nolan, a astronauta Amlia (Anne Hathaway) emociona-se ao ver que sua misso  encarregada de descobrir um lugar no universo desconhecido onde a espcie humana pudesse ter continuidade  chegara a um planeta coberto de gua, fonte de vida, ela faz questo de lembrar. Com isso, a sensao  que o objetivo do grupo havia sido alcanado. 
     Por que teriam ido to longe? Um dilogo travado pouco antes, ainda na Terra, pelo pai de Amlia, o professor Brand (Michael Caine), e Cooper, o piloto-protagonista (Matthew McConaughey), ajuda a compreender o porqu da jornada para alm das estrelas: 
 E agora, vai me dizer como planeja salvar o mundo?  pergunta Cooper. 
 No pretendemos salvar o mundo. Pretendemos deix-lo  responde Brand. 
     A conversa no poderia ser mais emblemtica para o enredo do longa-metragem. Ao mesmo tempo, sinaliza algo que o ultrapassa  nossa incessante busca por outro lar, uma "Terra 2.0", que parece fazer parte da prpria natureza humana. 
     No filme, diante da agonia terrestre  e do fato de que "nada no nosso sistema solar pode nos ajudar", como diz uma das personagens  , a nica sada  lanar-se ao espao na esperana de descobrir um planeta no qual a espcie possa se livrar da extino. Esse anseio de encontrar outros mundos, no entanto, ao contrrio do que se costuma supor, est longe de ser recente na histria da humanidade. No se formou com o advento da fico cientfica, tampouco a partir dos alarmes de um meio ambiente adoecido em razo da pssima, criminosa e irresponsvel convivncia que o homem moderno estabeleceu com ele. Na verdade, a pretenso de sair da Terra, ganhar o espao e encontrar outras galxias habitveis  e nelas, outros habitantes   remotssima. E nem sempre esteve associada a um sentido de emergncia, como em Interestelar  cujo ponto de partida, a ameaa do fim dos recursos naturais, no representa sequer a unanimidade do pensamento cientfico. Assim, a pergunta que se impe, incontornvel, : por que esse af de buscar uma Terra 2.0, sobretudo quando mesmo a cincia tem dvida de que ela exista e, se existir, possivelmente estar to distante que jamais se poder alcan-la? 
     Ressalte-se que a condio primeira para a pertinncia dessa vocao humana, demasiado humana, para procurar outros mundos  a existncia de um universo repleto de inmeros e variados sistemas planetrios  j era intuda por Demcrito de Abdera (c. 460-370 a.C.), organizador da doutrina atomista. Est se falando, portanto, de aproximadamente 2500 anos atrs. Textos com referncias a expedies espaciais datam da Antiguidade. Considerado um precursor da fico cientfica, o srio Luciano de Samsata (125-180 d.C.) escreveu uma estranha narrativa na qual um barco  soprado at os cus por "um enorme tufo"  qualquer aparelho que levasse o homem aos ares era impensvel  e seus tripulantes avistam "nosso planeta Terra". O alemo Johannes Kepler (1571-1630), o maior astrnomo de sua poca,  autor de um livro no qual um personagem vai  Lua. O tema seria explorado muitas vezes depois na literatura e no cinema  como fizeram os franceses Jlio Verne (1828-1905), que lanou Da Terra  Lua, em 1865, e Georges Mlis (1861-1938), cujo Viagem  Lua, de 1902,  tido como o primeiro filme de fico cientfica. 
     Seria preciso, como se sabe, esperar at 1969 para que o primeiro homem, de fato, pusesse os ps no satlite da Terra, perodo em que a fico visitou incessantemente aquele e outros tantos pontos do universo. A questo  que at mesmo isso que entendemos como universo anda sendo posto em xeque pela cincia. Em A Realidade Oculta, o fsico Brian Greene, professor da Universidade Columbia, afirma que a prxima "revoluo do conhecimento" pode estar na possibilidade de que o universo no seja nico. O "espao", que imaginvamos conter "tudo o que existe", seria apenas parte de algo infinitamente extenso. "'Universo' deu lugar a outros termos, no af de captar o ambiente maior em que a totalidade da realidade est contida. Mundos paralelos, ou universos paralelos, ou mltiplos universos, ou universos alternativos, ou metaverso, ou megaverso, ou multiverso  todos so sinnimos e todos so termos usados para incluir no s nosso universo, mas todo um espectro de outros universos que podem existir no espao mais amplo", destaca Greene. Se nosso "universo" faz parte de um "multiverso", a chance de que existam outros mundos onde a vida, especialmente a humana, possa acontecer aumenta, claro. S de exoplanetas  os que esto na rbita de outras estrelas que no o Sol, mas ainda dentro do nosso universo , j h registro de pelo menos 1800. O mais parecido com a Terra, o Kepler 186f, localiza-se a 500 anos-luz, ou seja, viajando  velocidade da luz, o homem demoraria 500 anos para chegar at ele. 
     Greene, em sua obra, lista nove verses de multiverso  algumas desconcertantes. O "multiverso repetitivo", por exemplo, abrigaria mundos paralelos, com cpias de toda sorte de coisas que conhecemos, inclusive de ns mesmos, numa concretizao exacerbada do motivo literrio do "duplo", que inspirou autores como o russo Fiodor Dostoievski (1821-1881) e o americano Philip Roth. No "multiverso hologrfico", ocorreria algo semelhante ao mito da caverna, do filsofo grego Plato (c. 427-348 a.C.): a realidade funcionaria como um holograma. 
     A pergunta inicial, entretanto, persiste: por que alimentar o anseio de encontrar outros mundos, outros universos, outros seres inteligentes? Para dividir o peso de estar aqui? "Se estivermos ss, significa que no somos apenas os herdeiros do universo, mas tambm seus nicos guardies. Seria inacreditvel", declarou a VEJA, em  1996, o escritor ingls Arthur C. Clarke (1917-2008), autor do clssico 2001: uma Odisseia no Espao, filmado em 1968 pelo americano Stanley Kubrick (1928-1999). "O ser humano busca vida em outros planetas porque quer saber mais sobre a prpria origem", acredita a astrofsica Dulia de Mello, pesquisadora do Goddard Space Flight Center, da Nasa, e especialista na anlise de imagens do telescpio Hubble. " muito enigmtico pensarmos que somos os nicos habitantes inteligentes. Carl Sagan tem uma frase famosa: 'Se fssemos os nicos no universo, seria um grande desperdcio de espao'", comenta. "A ideia de procurar vida l fora remete, em alguma medida,  ideia milenarista de um messias. Aps a II Guerra, comeou uma febre de ovnis. O horror e a destruio trazidos pelo conflito contriburam para insuflar a perspectiva de que seres mais avanados nos ajudariam a retomar o caminho certo. Eles nos salvariam", argumenta Silas Guerriero, professor do programa de ps-graduao em cincia da religio da PUC-SP. A Igreja Catlica, que fundou seu primeiro observatrio em 1774, hoje sediado na residncia de vero do papa, em Castel Gandolfo, tem procurado conciliar avanos cientficos com a f. "A possvel descoberta de vida em outro planeta no colocaria a teologia crist em crise. Nesse contexto, Deus  o criador de tudo, logo, tambm seria criador desses outros habitantes do universo", pondera Guerriero. 
     "Processos astrofsicos produzem planetas por todo o cosmo. (...) Ns nos encontramos em um desses planetas, que gira a 150 milhes de quilmetros de nosso sol, porque este  um planeta em que nossa forma de vida pde evoluir. Se no levarmos em conta esse vis de seleo, tenderemos a ficar buscando uma resposta mais profunda", anota Brian Green em A Realidade Oculta. E por que no busc-la? Pode-se comear com o filsofo austraco Ludwig Wittgenstein (1889-1951): "A soluo do enigma da vida no espao e no tempo encontra-se fora do espao e do tempo". 
COM REPORTAGEM DE FERNANDA ALLEGRETTI


7#3 RECURSOS HDRICOS  SE EST EM FALTA,...
...a gua pode ser criada, com mquinas que transformam o ar mido em gotculas do precioso lquido.  uma alternativa inteligente, embora ainda muito cara, para um futuro de escassez.
JENNIFER ANN THOMAS

A gua est na origem de todas as coisas. 
TALES DE MILETO, considerado o primeiro filsofo (c. 624-546 a.C.) 

     Para quem v a Terra de cima, como fez o cosmonauta russo Yuri Gagarin (o primeiro homem a chegar ao espao, em 1961), o planeta azul parece ter boa gua em abundncia. No  bem assim: 97% de todos os recursos hdricos ficam em oceanos e mares salgados  ou seja,  volume imprprio para consumo  e outros 2% esto congelados. Do 1% potvel que sobra, a maior parte  de difcil acesso. A situao se agrava quando se nota que uma parcela inaceitvel do que podemos usar  desperdiada ou poluda aos montes (veja a reportagem na pg. 102). O Brasil, pas lder em recursos hdricos, sente como poucos a escassez de gua que se alastra pelo planeta. A seca no Sudeste no d trgua, com o principal reservatrio de So Paulo, o Sistema Cantareira, em meros 11% de sua capacidade, segundo registro do meio da semana passada (e isso s porque a segunda cota do volume morto, nunca antes usada e de qualidade duvidosa, comeou a ser captada). Diante de um futuro de contornos drsticos  e secos  para o Brasil e para o mundo, resta recorrer a novas fontes para garantir o abastecimento da humanidade em um futuro mais prximo do que se imagina. Duas alternativas comeam a se tornar viveis, e necessrias. A primeira: saber aproveitar, com cuidado, reservas subterrneas, chamadas de aquferos, ainda no to acessveis quanto lagos, rios e reservatrios. A segunda, mais sustentvel, e que soa a fico cientfica: transformar ar em gua, com tecnologias que lembram o que ambicionavam antigos alquimistas. 
     Usar uma mquina para fazer H2O lquida a partir do ar parece uma inveno sada dos textos do ingls Arthur C. Clarke, mas a lgica por trs da operao  ancestral e coerente. So dois os conceitos bsicos que servem de alicerce para a tcnica, conhecidos pela humanidade h muito: evaporao e condensao. Existe H2O em abundncia no ar, mas  preciso transform-la em gua lquida por meio de condensao, o processo inverso da evaporao, pela qual molculas gasosas perdem calor e se condensam. H mais de 500 anos, o imprio inca j coletava orvalho acumulado e o canalizava como gotculas para abastecer cisternas. Era um recurso desenvolvido com base no entendimento de que o ar se transformaria em gua. Mquinas que tornam esse processo industrial, porm, s comearam a aparecer na dcada passada. 
     Um dos pioneiros  o cientista australiano Max Whisson. Em 2007 ele criou um moinho que capta ventos e os refrigera rapidamente, a ponto de eles se transformarem em gotculas. O problema  que sua mquina custava 40.000 dlares e no deixou de ser um prottipo carssimo e pouco eficiente. Foi um ano depois que esses aparelhos se mostraram comercialmente viveis. A canadense Element Four lanou a WaterMill, que, abastecida por energia eltrica, transforma umidade do ar em gua. J havia mquinas capazes disso, como as de ar condicionado. Mas o modelo atual da WaterMill fabrica gua potvel e mineral em abundncia (18 litros por dia, o suficiente para abastecer uma famlia). 
     O engenheiro brasileiro Pedro Ricardo Paulino utiliza tcnica parecida em sua Wateair, no mercado desde 2009 (veja abaixo). Em suma, esses equipamentos reproduzem o processo natural ao sugar o ar e provocar um choque de temperatura para condensar vapor de gua em H2O lquida. Ele vende o aparelho a preos que variam de 7000 (de uso domstico) a 350.000 reais (industrial). "Oitenta por cento de meus clientes so empresas e governos africanos, onde a seca  intensa", diz Paulino. "Mas ganho cada vez mais no Brasil, com esse crescente problema no Sudeste. Passei a receber pedidos de indivduos que querem contornar por conta prpria a falta de abastecimento", acrescenta. Resultado da seca, especialmente da paulista, para o bolso de Paulino: aumento de 500% no faturamento em dois meses. No comeo deste ms, o engenheiro apresentou a Geraldo Alckmin, o governador de So Paulo, uma proposta de construo de vinte usinas  beira dos rios Tiet e Pinheiros para a gerao de 2 milhes de litros de gua por dia. Ainda no se sabe se os planos vo para a frente, mas o custo inicial seria de 60 milhes de reais, e levaria ao menos dois anos para que fosse construda a primeira unidade  isso no resolveria, de imediato, a crise atual, mas, a mdio prazo, poderia vencer o fantasma da seca. 
     Avalia o engenheiro Samuel Barreto, coordenador do Movimento gua para So Paulo e consultor da ONG The Nature Conservancy: "Temos de considerar essa possibilidade tecnolgica, mas antes precisamos pensar no que ocorrer quando mais uma vez passar o perodo chuvoso, aps abril de 2015". Para ele, o fundamental, por ora,  reduzir o consumo e saber reaproveitar o que  usado. "Uma boa alternativa  o reso do esgoto, que pode ser tratado adequadamente, o que criaria uma reserva equivalente a mais um Sistema Cantareira, s que cheio", prope. Para o advogado Vinicius Vargas, especialista em sustentabilidade do escritrio Barros Pimentel, para que o reaproveitamento fosse eficiente seria necessrio mexer na legislao brasileira: "Hoje,  permitido tratar o esgoto, mas antes temos de jog-lo em reservatrios. Seriam evitados gastos se fosse permitido o tratamento direto da gua". Outra soluo imediata, apesar de paliativa, para as secas do Sudeste (e de todo o planeta)  aproveitar, com cautela, as reservas no subsolo, como em aquferos. Embaixo do solo est grande porcentagem da gua potvel e acessvel da Terra. Em resumo, as orientaes so as que valem para a utilizao de qualquer recurso natural:  preciso cuidar do que temos e procurar por fontes alternativas menos vulnerveis. 

ELE FAZ CHOVER
A mquina de Pedro Paulino: umidade do ar usada para produzir centenas de litros de gua por dia.
Preo da mquina: 7000 a 350.000 reais
Quantidade de litros produzidos por dia (*No modelo intermedirio, de 105.000 reais ): 500
Custo para a produo de 500 litros: 85 reais
A mesma quantidade de gua captada da rua sai por 4 reais em So Paulo.

FONTE ARTIFICIAL
Mquinas portteis que transformam ar em gua mineral potvel so uma boa alternativa para um futuro em que recursos hdricos sero cada vez mais escassos.
At sair pela torneira:
1- Turbinas sugam o ar, que passa por um filtro capaz de eliminar 97% das bactrias.
2- Um processo de aquecimento, seguido de resfriamento, condensa o ar mido, transformando-o em gua.
3- Oito filtros tiram impurezas, estabilizam o pH em 7 (ideal para gua) e adicionam sais minerais, como clcio e magnsio.
4- A gua, potvel,  armazenada em um tanque, cuja capacidade varia de acordo com o modelo (atingido o limite, a mquina para a produo).
5- Se o dispositivo no for desligado, a gua ser constantemente esterilizada e continuar prpria para o consumo.

A GUA, AS CIDADES E NS
     Em tempos de escassez e da cada vez mais evidente m utilizao dos recursos hdricos brasileiros, um projeto desenhado pelo Arq.Futuro, frum de discusses sobre arquitetura e urbanismo, em parceria com o renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e o escritrio italiano de design Carlo Ratti Associati prope uma forma de convidar a populao para um debate sobre a utilizao da gua, bem em meio aos Jogos Olmpicos de 2016. O grupo sugere a construo de um pavilho parcialmente submerso em forma de anis olmpicos na Lagoa Rodrigo de Freitas, cone do Rio de Janeiro, onde os visitantes poderiam admirar a paisagem ao redor. Drones ainda sobrevoariam a regio levantando informaes sobre a qualidade da gua, como a quantidade de poluentes e o grau de ameaa s espcies de vegetais e animais que ali vivem.  
     O projeto  um dos dez apresentados na revista Monolito de nmero 23, lanada na semana passada pelo Arq.Futuro. Todos esto relacionados ao melhor uso de recursos hdricos urbanos. H, por exemplo, uma proposta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de So Paulo que analisa a viabilidade tcnica, econmica e ambiental de transformar rios da capital paulista, como o Tiet, o Pinheiros e o Tamanduate, em canais navegveis para o transporte de cargas pblicas. Outro trabalho, este construdo e concludo em 2004, tem como foco a Ilha da Ressaca, plat formado por sedimentos vindos de crregos, em Belo Horizonte. A ideia foi tornar o local uma rea de lazer, instalando ali o Parque Ecolgico da Pampulha, com cinco setores: parte alagada, rea esplanada, enseada, regio de reserva florestal e outro com rvores reflorestadas. So formas criativas de despertar na populao o senso de cuidado que se deve ter com os recursos naturais  nossa disposio. 


7#4 AQUECIMENTO GLOBAL  UM GESTO DE LIMPEZA
A China e os Estados Unidos, os maiores poluidores do planeta, assinaram acordo para reduzir a emisso de dioxido de carbono. Eis um reflexo dos recentes esforos da humanidade para quitar suas dvidas com a natureza.
JENNIFER ANN THOMAS

No h plano B porque no temos um planeta B."
BAN KI-MOON, secretrio-geral da ONU

     O mundo carece de gua limpa. Segundo a ONU, duas em cada dez pessoas no tm acesso ao lquido potvel, de qualidade. Isso faz com que 80% das doenas em pases em desenvolvimento sejam consequncia do consumo de gua contaminada. At 2025, a previso  que dois teros da populao vivam em condies crticas de abastecimento, um caminho rpido para a ecloso de conflitos polticos e blicos por fontes de recursos hdricos. E, no entanto, desperdiamos aos montes. Diariamente, 2 milhes de toneladas de esgoto so depositados em cursos de gua. Nos pases em desenvolvimento, 70% do esgoto industrial vai parar em reservas. Mais um efeito da essncia destruidora do homem, cuja pegada de devastao fica por onde passa (veja o quadro na pg. 104), abusando, muito mais do que o necessrio, de todos os recursos que a Terra nos dispe, especialmente a gua. No fim desse buraco, h ao menos um alento.  inegvel o aumento das preocupaes e dos esforos conservacionistas, sobretudo nas ltimas quatro dcadas. 
     Houve um histrico avano, divulgado um dia antes do espetacular encontro da misso Rosetta com o cometa 67P, numa coincidncia feliz de dois extraordinrios saltos para o futuro da humanidade, com o anncio do indito acordo firmado na semana passada entre a China e os Estados Unidos (os maiores poluidores do planeta) para a reduo da emisso de dixido de carbono (o CO2), o grande vilo do ambiente.  a primeira vez que a China se compromete formalmente a limitar suas emisses de CO2. O plano do pas asitico, o campeo mundial da sujeira,  fazer com que ao menos 20% de sua energia seja proveniente de fontes renovveis at 2030. A China,  verdade, demorou a se preocupar com a questo (e a maioria dos danos que j causou  irreparvel). Mas  melhor tornar-se sustentvel tarde do que nunca. Os Estados Unidos prometem reduzir as emisses em 30% at 2025. Juntos, os dois pases so responsveis por 45% do dixido de carbono jogado na atmosfera. 
     Diminuir o ndice de CO2 no ar beneficia todo o ecossistema, da sobrevivncia de animais  preservao da gua. Segundo a associao Global Footprint Network, a queima de combustveis fsseis corresponde ao maior risco que o homem representa hoje para a conservao da natureza. A Footprint  famosa por calcular o impacto que cada indivduo e tambm cada pas tm no ambiente. Para isso, usa como base a "pegada ecolgica", medida que define quantos hectares da Terra (de plantaes a ocupao de reas urbanas) so necessrios para suportar o modo de vida de uma pessoa. Depois, avalia quantos planetas Terra seriam necessrios para sustentar toda a humanidade se a populao global adotasse hbitos similares. 
     Segundo a Footprint, faz mais de quarenta anos que a humanidade ultrapassou o limite daquilo que a Terra  capaz de suprir (veja o quadro). As consequncias do consumo desenfreado so evidentes: aquecimento global, crise hdrica, empobrecimento do solo, efeito estufa, entre tantos outros reflexos diretos dos exageros humanos. 
     Para calcular a pegada ecolgica so quantificados diversos hbitos de consumo, da alimentao ao gasto de gua em banhos e escovando os dentes (descubra a sua pegada no teste da pg, 110). Hoje, um ser humano necessita, em mdia, de 2,7 hectares para se sustentar. Passou do limite. Para continuar nessa toada a longo prazo seria necessrio 1,6 planeta como a Terra. O maior peso na formao da pegada provm da emisso de CO2. Em 1961, a emisso de carbono na atmosfera j representava 36% da pegada ecolgica global. Em 2010, saltou para 53%. 
     Disse a VEJA Mathis Wackernagel, presidente da Footprint: "O CO2 fica acumulado na atmosfera e em oceanos, poluindo nosso ar e nossa gua. Felizmente, temos ferramentas e conhecimento para reverter a situao, e  nosso dever fazer isso". Espalham-se, antes das solues, os efeitos da devastao humana. Populaes de animais silvestres caram pela metade desde 1970. Os que vivem em gua doce so os mais afetados, com reduo de 76%. Os estoques de recursos naturais, como os hdricos, sofrem como nunca, e a Terra est  beira do colapso. At 2050, a populao mundial deve ganhar mais de 2 bilhes de integrantes, somando 9,6 bilhes de pessoas. Ou seja: mais gente consumindo alimentos, combustveis fsseis e gua. Estima-se que, dentro de 35 anos, 65% de todos os seres humanos sofrero com algum tipo de falta de gua. At o fim do sculo, 4 bilhes de pessoas devem morar em reas com problemas de abastecimento. 
     Para medir quanto usamos e precisamos de gua no dia a dia, a Footprint tambm considera o conceito de pegada hdrica, que soma fatores como o consumo de gua doce e a poluio de recursos hdricos por cada indivduo. Tambm entra na conta a agricultura, que consome gua por irrigao ou pela absoro de chuvas. Isso faz com que esse setor corresponda a 92% da pegada hdrica mundial. 
     O acordo da semana passada entre China e Estados Unidos serviu para determinar uma nova postura dos dois pases, que procuram se ajustar a esse novo anseio de limpeza sustentvel. Com isso, eles ainda esperam se transformar de maiores poluentes do planeta a faris que guiam os esforos conservacionistas. No por acaso, o trato veio apenas uma semana depois da apresentao da ltima parte do quinto relatrio do Painel Intergovernamental de Mudanas Climticas (IPCC), o brao climtico da ONU. No texto, destacou-se a necessidade de diminuir em ao menos 40% a emisso de CO2 mundial at 2050 para evitar um descompasso irreversvel do clima. O acordo foi a resposta de americanos e chineses. Disse Barack Obama, presidente dos Estados Unidos: "Como as duas principais economias e os maiores emissores de gases de efeito estufa, temos uma responsabilidade especial de liderar o esforo global contra as mudanas climticas". Em outras palavras, finalmente esses pases assumiram sua parcela de responsabilidade. 
     A longo prazo, porm, as medidas governamentais no conseguem, sozinhas, reverter sculos de devastao ambiental. Para que isso ocorra de forma eficaz,  preciso que cada indivduo se conscientize de sua responsabilidade para com a natureza. No Brasil, por exemplo, o que infla a pegada ecolgica mdia da populao no  a emisso de carbono per capita, mas sim o consumo  de carne bovina. No se trata apenas da carne ingerida, mas tambm da rea desmatada para a criao de gado e do uso de gua pela pecuria. O que a Footprint recomenda ao brasileiro  reduzir a ingesto de carne e incentivar o consumo de alimentos produzidos perto de sua cidade (o que ajuda a diminuir o impacto ao, por exemplo, reduzir os gastos com combustvel para o transporte e de energia eltrica com refrigerao). 
     As dicas de Wackernagel, da Footprint, para mudar hbitos individuais: "Repense suas fontes de energia, diminua a presena de alimentos de origem animal em sua dieta (no  preciso ser radical e virar vegetariano) e considere ter menos filhos". As sugestes flertam com a obviedade. Mas  aquele bvio que poucos seguem. No fim,  essencial ter conscincia de que, por mais abundantes que aparentem ser, os recursos da Terra so limitadssimos. O pior: caso acabem, no h como rep-los. Nas palavras do sul-coreano Ban Ki-moon, secretrio-geral da ONU: "No h plano B porque no temos um planeta B". 

AS PEGADAS DA DESTRUIO
A unidade "pegada ecolgica" mede nosso impacto na natureza. Levam-se em conta fatores como poluio e consumo de alimentos para definir quantos hectares da Terra so necessrios para sustentar os hbitos de cada indivduo. Depois, calcula-se se o planeta suportaria a demanda caso todos seguissem o mesmo modo de vida.
A PEGADA MUNDIAL 
1 indivduo 2,7 hectares
1 hectare = 10.000 m2
1,6 Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida

AS MAIORES PEGADAS...
1 Kuwait: 10,4 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 6,1
2 Emirados rabes: 10,2 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 6
3 Catar: 8,5 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 5
4 Dinamarca: 7,5 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 4,4
5 Estados Unidos: 10,4 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 6,1
56 Kuwait: 7 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 4,1

...E AS MENORES PEGADAS
147 Eritreia: 0,5 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 0,3
148 Timor-Leste: 0,4 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 0,2

O IDELA PARA NO DESTRUIR A TERRA
1,8 hectares por indivduo. Planetas necessrios se todos adotassem o mesmo modo de vida: 1

O IMPACTO DE UMA VIDA
A poluio que um cidado americano mdio, com expectativa de vida de 79 anos, produz em sua passagem pela Terra (e a origem de sua devastao) 
32% Gerao de eletricidade
28% Transporte
20% Indstria
10% Uso residencial e comercial
10% Agricultura
27,4% Papel e papelo
14,5% Restos de alimentos
13,5% Sobras de jardinagem
12,7% Plsticos
8,9% Metais
8,7% Borracha, couro e txteis
6,3% Madeira
4,6% Vidro
3,4% Outros
750 TONELADAS DE GASES POLUENTES
57 TONELADAS DE RESDUOS SLIDOS.
O americano polui 13 vezes mais que um brasileiro mdio.

COM REPORTAGEM DE RAQUEL BEER


7#5 AMAZNIA  UM PASSO PARA TRS
Referncia em sustentabilidade, o Brasil pode passar vergonha ao derrapar no combato  destruiro de biomas. Exemplo ruim: o crescente desmatamento da Amaznia.
RAQUEL BEER

Qualquer tolo destri rvores. Elas no podem correr; e, se pudessem, ainda seriam destrudas  caadas enquanto dlares ainda fossem extrados de suas cascas." - JOHN MUIR, um dos primeiros e mais influentes naturalistas americanos (1838-1914) 

     O Brasil  reconhecido como referncia em sustentabilidade. O pas extrai 77% de sua energia de hidreltricas, fonte considerada limpa. Desde a dcada de 70, o programa de biocombustvel nacional, copiado por sessenta pases, fez com que nos tornssemos a nao que mais substituiu gasolina por etanol. Aps quarenta anos de destruio da Amaznia, novos sistemas de fiscalizao reduziram drasticamente o desmate. As boas notcias param a. Descuidos e inpcias recentes puseram em risco o status brasileiro de respeito ao conservacionismo ambiental. Houve um vergonhoso passo para trs no desmatamento da Amaznia. 
     Dados do Ibama divulgados no ms passado revelaram que o desmatamento voltou a crescer na Amaznia. Entre 2012 e 2013, o aumento foi de quase 30% (acredita-se que a divulgao de dados ainda mais alarmantes de 2014 foi atrasada para no prejudicar a imagem de Dilma Rousseff durante as eleies presidenciais). Se a devastao continuar nesse ritmo, em quarenta anos o bioma mais rico da Terra pode se transformar em um grande pasto. O resultado seria a destruio da fauna e da flora e o descontrole dos regimes de chuvas, com impacto global. 
     Em estudo recente, o geofsico Antnio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, revisou 200 artigos cientficos sobre os efeitos da destruio da floresta e concluiu que para reverter a perda  preciso no apenas zerar a devastao, mas comear o reflorestamento. O bioma, alm de ser um ecossistema riqussimo,  responsvel por regular o clima na Amrica do Sul, por meio do "bombeamento de gua", processo pelo qual as rvores, ao transpirar, enviam vapor de gua  atmosfera. Isso diminui a presso atmosfrica, aumenta a velocidade de ventos do oceano para o territrio e leva nuvens carregadas por 3000 quilmetros.  uma contribuio direta para chuvas no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil e em reas da Argentina, da Bolvia e do Paraguai. O desmatamento, no entanto, diminui a intensidade desse processo, o que constitui um atalho para secas cada vez mais intensas. 
     A retomada do aumento do desmatamento no  nossa nica vergonha. H duas semanas, um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros publicou na revista cientfica Science um artigo que revela quanto o Brasil tem queimado o prprio filme quando o assunto  sustentabilidade. Entre outros pontos, o documento destaca que desde 2008 o pas perdeu 44.000 quilmetros quadrados de reas de conservao. Ainda circula pelo Congresso um projeto de lei destinado a liberar 10% dos territrios protegidos para atividades de minerao. S na Amaznia, 21.000 quilmetros quadrados de reservas esto ameaados com propostas para tirar-lhes o atual status de conservao. Alertou Joice Ferreira, biloga da Embrapa e coordenadora do artigo da Science: "Se nem conseguimos proteger reas que prometemos preservar, ser cada vez mais invivel manter nosso papel como smbolo de sustentabilidade". Ao expor essa fragilidade, o Brasil faz gua.

A CURVA DA DEVASTAO
A boa notcia: na ltima dcada, esforos conservacionistas diminuram o desmatamento na Amaznia. A m: falhas no monitoramento levaram ao aumento da devastao no ano passado (na foto, plantao de trigo em segmento da floresta no Par). Se o ritmo de destruio continuar assim, o mais rico ecossistema do planeta poder deixar de existir em quarenta anos.
2004  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 27.772. O equivalente ao Estado de Alagoas. A segunda pior taxa de desmatamento, atrs apenas da de 1995, levou  criao de um plano de controle que delimitou 28.000 hectares de reas de conservao e instalou sistemas de alerta baseados em imagens captadas por satlites. Resultado: o ritmo de destruio diminuiu a partir do ano seguinte.
2005  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 19.014
2006  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 14.286
2007  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 11.651
2008  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 12.911. Aumento em relao ao ano anterior: 10,8%. Aps trs anos de bons resultados, o desmatamento cresceu ligeiramente, por causa de agricultores que avanavam, ilegalmente, os limites de suas terras (estrago combatido no mesmo ano com uma medida que restringiu emprstimos a produtores que no respeitavam leis ambientais).
2009  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 7464
1010  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 7000
2011  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 6418
2012  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 4571. Diminuio em relao ao ano anterior: 28,7%. A menor taxa de desmatamento desde o incio dos registros histricos, em 1988, alcanada aps a implementao de boas prticas de fiscalizao, nos anos anteriores.
2013  Desmatamento anual em quilmetros quadrados: 5891. Aumento em relao ao ano anterior: 28,9%. Limitaes tcnicas do sistema de monitoramento por satlite no detectaram invases em reas com menos de 25 hectares; pequenos agricultores descobriram a brecha (e se aproveitaram dela).


7#6 COMPORTAMENTO  O IMPACTO DE CADA UM
Um teste formulado pelo WWF, o Fundo Mundial para a Natureza, calcula a chamada pegada ecolgica individual, unidade que mede o rastro ambiental daninho dos hbitos cotidianos de uma pessoa. Responda de acordo com seu modo de vida.

1) Ao fazer compras no supermercado:
A) Compro tudo de que tenho vontade, sem prestar ateno no preo, na marca ou na embalagem
B) Uso apenas o preo como critrio de escolha
C) Presto ateno se os produtos de determinada marca so ligados a alguma empresa que no respeita o meio ambiente
D) Considero preo e qualidade, alm de escolher produtos que venham em embalagem reciclvel e respeitem critrios ambientais

2) Entre os alimentos que voc consome normalmente, que quantidade  pr-preparada, embalada ou importada?
A) Quase todos
B) Metade
C) Um quarto
D) Quase nada. A maior parte tem origem orgnica e  de produo nacional

3) Qual  o destino do lixo produzido em sua casa?
A) No me preocupo com isso
B) Tudo  colocado em sacos recolhidos pelo lixeiro, mas no imagino para onde o lixo vai
C) Separo o reciclvel
D) O lixo seco  direcionado  reciclagem, e o orgnico, encaminhado para a compostagem (transformado em adubo)

4) Quais eletrodomsticos voc utiliza em casa?
A) Geladeira, freezer, mquina de lavar roupa e forno de micro-ondas
B) Geladeira e mquina de lavar roupa
C) Geladeira e forno de micro-ondas
D) Geladeira

5) Considera, ao comprar eletrodomsticos e lmpadas, a eficincia energtica do produto (se ele consome menos energia]?
A) No. Compro o mais barato
B) Utilizo lmpadas frias, mas no levo em considerao a eficincia energtica de eletrodomsticos
C) Compro eletrodomsticos que consomem menos energia, mas utilizo lmpadas incandescentes
D) Sempre

6) Voc deixa aparelhos de som, computadores ou televisores ligados, e lmpadas acesas, quando no esto sendo utilizados?
A) Sim, mesmo quando no estou no mesmo ambiente
B) S quando sei que em alguns minutos voltarei ao local
C) Deixo apenas o computador ligado, mas desligo o monitor
D) No. Sempre desligo os aparelhos e as lmpadas e deixo o computador ao menos em estado de hibernao (stand by)

7) Quanto tempo voc leva, em mdia, tomando banho?
A) Mais de 20 minutos
B) Entre 10 e 20 minutos
C) Entre 5 e 10 minutos
D) Menos de 5 minutos

8) Quantas vezes por semana voc liga o ar-condicionado em casa ou no trabalho?
A) Todos os dias
B) Trs ou quatro vezes
C) Uma ou duas vezes
D) No tenho ar-condicionado, nem no trabalho

9) Quando voc escova os dentes...
A) ...a torneira permanece aberta o tempo todo
B) ...a torneira  aberta apenas para molhar a escova e na hora de enxaguar a boca

10) Quantos habitantes moram em sua cidade?
A) Acima de 500.000
BI De 100.000 a 500.000
C) De 20.000 a 100.000
D) Menos de 20.000

11) Quantas pessoas vivem em sua casa?
A) 1
B) 2
C) 3
D) 4 ou mais

12) Qual  a rea de sua casa ou apartamento?
A) Mais que 170 metros quadrados
B) 100 a 170 metros quadrados
C) 50 a 100 metros quadrados
D) 50 metros quadrados ou menos

13) Com qual frequncia voc consome produtos de origem animal (carne,        peixe, ovos, laticnios)?
A) Como carne todos os dias
B) Como carne uma ou duas vezes por semana
C) Raramente como carne, mas consumo ovos e laticnios quase todos os dias
D) Sou vegetariano ou vegan

14) Qual  o tipo de transporte que voc mais utiliza?
A) Carro  meu nico meio de transporte e, na maioria das vezes, no levo passageiros 
B) Tenho carro, mas procuro fazer a p os percursos mais curtos e privilegio o uso de transporte coletivo sempre que possvel 
C) No tenho carro e uso transporte coletivo 
D) No tenho carro, uso transporte coletivo s quando necessrio e me locomovo muito a p ou de bicicleta

15) Por ano, quantas horas gasta viajando de avio?
A) Em torno de 50 horas
B) Em torno de 25 horas
C) Em torno de 10 horas
D) Nunca voo de avio

CALCULE SUA PEGADA
Some os valores de cada opo marcada, pelos seguintes critrios:
Questes 1 a 9 (na questo 9, a B vale 1 ponto) 
A) 4 pontos
B) 3 pontos
C) 2 pontos
D) 1 ponto

Questes 10 a 14: 
A) 8 pontos
B) 6 pontos
C) 4 pontos
D) 2 pontos

Questo 15:
A) 12 pontos
B) 9 pontos
C) 6 pontos
D) 3 pontos

RESULTADO:
At 23 pontos  Nessa faixa se encaixam aqueles que levam uma vida bem sustentvel.
 Se todos tivessem o mesmo modo de vida, seriam necessrios os recursos de 1 planeta como a Terra para sustentar a humanidade a longo prazo.

De 24 a 44  Sua pegada est um pouco acima do recomendado, mas alguns ajustes, como reciclar o lixo, compartilhar o carro e preferir a compra de produtos locais, podem lev-lo a um estilo de vida sustentvel. Aqui est a maioria das pessoas.
 Se todos tivessem o mesmo modo de vida, seriam necessrios os recursos de at 2 planetas como a Terra para sustentar a humanidade a longo prazo.

De 45 a 66  A situao  grave.
Nessa categoria esto os que destroem muito mais o planeta do que a mdia da populao mundial. Caso queira ficar em dia com o planeta,  preciso reavaliar seus hbitos: compre apenas o necessrio e repense sua dieta e seus meios de transporte. 
 Se todos tivessem o mesmo modo de vida, seriam necessrios os recursos de at 3 planetas como a Terra para sustentar a humanidade a longo prazo.

De 67 a 88 - Alerta total! Sua pegada est entre os padres mais insustentveis do mundo. Preste ateno nas suas atitudes desde o comeo do dia, quando estiver escovando os dentes ou tomando banho (provavelmente longo). 
 Se todos tivessem o mesmo modo de vida, seriam necessrios os recursos de at 4 planetas como a Terra para sustentar a humanidade a longo prazo. 


